“Lutei com muita dificuldade, pois não sendo pintor minha experiência com a policromia foi muito reduzida.” (Oswaldo Goeldi em entrevista ao jornalista Ferreira Gullar - Artes Plásticas - “JB” - 11/12/1957)

A temática apresentada deverá surpreender aos admiradores da arte de Oswaldo Goeldi.

O artista meticuloso e descrito por muitos como um homem soturno, solitário e que na maioria de suas obras retratava lugares sombrios e noturnos, acabou em meio a suas experiências cromáticas desbravando-se no imaginário botânico que viveu na infância nos jardins do Museu Paraense Emilio Goeldi, Belém-PA.

Oswaldo Goeldi, a princípio nunca se animou em colorir suas gravuras; às vezes foi cobrado por outros artistas, mas não se manifestou interessado, talvez por temer que a cor viesse a prejudicar a qualidade específica da gravura.

Vivia nessa hesitação quando tomou conhecimento do poema de Raul Bopp, “Cobra Norato”, que, reportando-lhe ao seu mundo infantil, despertou-lhe o desejo de ilustrá-lo. Ai, a necessidade da cor se tornou forte e imperativa. Recordou-se do seu mundo amazônico, e não poderia dissociar a cor das imagens dos animais, das plantas e das lendas amazônicas com que convivera na sua infância.

Por meses, Oswaldo trabalhou nessa obra, cuja impressão ele mesmo dirigiu e custeou. Ao gravar as matrizes para esse trabalho, valorizou o poema com maior força sugestiva e realizou um dos mais importantes livros ilustrados do Brasil.

Com audácia, manipulou a cor e obteve efeitos inimagináveis. Em algumas gravuras, aboliu o preto até mesmo para manter o desenho.

Através desta experiência bem sucedida, passou a experimentar a cor de forma pontual, cujos resultados o surpreenderam.

A sua interpretação da natureza revelava também algo da herança expressionista. A cor, na gravura em madeira, foi empregada como acessório decorativo. A partir do momento em que decidiu introduzi-la na gravura, queria a cor como elemento expressivo, integrado à composição. Para isso, a mesma teria que ser concebida de início em cores, criando inclusive ferramentas próprias para este fim.

A partir de então, executou muitos trabalhos coloridos e icônicos, alguns sob encomenda, que nunca chegaram a ser publicados, como desta série de Flores, que Goeldi confeccionou com grande dedicação, mas infelizmente não foram utilizadas pela Editora Agir, ficando guardadas por muito tempo.

Acreditamos que ao levarmos esta coletânea ao público revelamos mais uma faceta do artista Oswaldo Goeldi, considerado como o “Pai da Gravura Brasileira”.

Lani Goeldi

Curadora

Tradução em Libras

Audiodescrição