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Notícias - Mestre revelado


Mestre revelado


Até hoje pouco conhecido do grande público, o gravador Oswaldo Goeldi é lembrado em exposição que exibe obras inéditas e em site que documenta sua produção, marcada por tons sombrios e imagens solitárias
Bianca Tinoco 



Para o poeta Carlos Drummond de Andrade, que lhe dedicou um poema, ele era o senhor das sombras, da solidão e do sol noturno, autor de obras de beleza quase assustadora. Para o crítico de arte Ronaldo Brito, ele é nada menos que o maior artista brasileiro do século 20, embora quase sempre incompreendido. Mas até hoje ainda desconhecido do grande público, o gravador carioca Oswaldo Goeldi (1895-1961) felizmente começará a perder sua aura de mistério na quinta-feira, quando será lançado na internet o Centro Virtual de Documentação e Referência Oswaldo Goeldi (www.centrovirtualgoeldi.com). Com 700 gravuras e desenhos que remetem à solidão nas grandes cidades, o banco de dados organizado com patrocínio da Petrobras deu origem a uma exposição com 40 obras, algumas inéditas, que será aberta sexta-feira ( 03-11-2005) no Museu da República.
– Trata-se de uma miniminirretrospectiva, com obras referentes a cada período da carreira dele. É pequena, mas com Goeldi o tamanho é o que menos importa. Uma gravura dele com 10 cm pode conter o universo inteiro – diz a historiadora Noemi Ribeiro, que se dedica à obra de Goeldi há mais de 20 anos e é responsável pelo projeto.

Filho do cientista suíço Emílio Augusto Goeldi, o gravador, desenhista e ilustrador foi criado em Belém (PA) e posteriormente em Berna, na Suíça. Dedicou-se durante toda a carreira a um trabalho expressionista que ressalta o estranhamento que sentia diante do mundo. Em voga na Europa do início dos anos 20, o estilo de Goeldi não foi bem recebido quando o artista voltou a morar no Rio e fez sua primeira exposição em 1921, no Liceu de Artes e Ofícios.

Respeitado por intelectuais como a poeta Beatrix Reynal e os escritores Rachel de Queiroz (1910-2003) e Manuel Bandeira (1884-1984), ele, no entanto, passou a ser visto como uma exceção frente ao colorido modernismo de Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti. Seu temperamento reservado e solitário contribuiu para esse distanciamento.

A exposição no Museu da República apresenta pela primeira vez algumas das obras produzidas por Goeldi ainda na Suíça e que já revelavam suas bases operacionais e a visão de mundo do artista.

– São trabalhos da juventude, comprados recentemente por um colecionador brasileiro. Costumo dizer que Goeldi já nasceu sabendo arte, só amadureceu no domínio das técnicas – diz Noemi.

O nome do colecionador que permitiu o registro das gravuras inéditas no Centro Virtual de Documentação será revelado no site, que também divulgará uma série de outros nomes, de particulares e de instituições públicas e privadas. Segundo Noemi, embora discretos, os colecionadores do artista são muitos e aficionados pela obra dele – a maior parte dos acervos reúne grupos de gravuras.

A abertura do Centro de Documentação foi a forma que a pesquisadora encontrou para que os proprietários ainda desconhecidos de trabalhos do artista, sabendo da catalogação, a procurem também.

– Reunimos não apenas imagens dos trabalhos de Goeldi, mas cópias das cartas que ele trocou com o artista expressionista austríaco Alfred Kubin (1877-1959), seu principal interlocutor. Elas poderão ser lidas no site com a grafia de Goeldi, em alemão. Todas terão tradução em inglês e português – adianta Noemi, ressaltando que o site será bilíngüe.

Para o pernambucano Gilvan Samico, aluno de Goeldi na década de 50 e um dos maiores gravadores do Brasil, o Centro de Documentação chega em boa hora.

– É indiscutível a importância da obra dele. Eu teria que inventar algum adjetivo para falar do meu sentimento por Goeldi. Livio Abramo e ele foram os melhores gravadores do Brasil no século passado e tive a sorte de ser aluno de ambos. Enquanto Goeldi não for reconhecido, haverá uma grande lacuna na história da arte brasileira – afirma.

Goeldi merece um museu público, afirma Ronaldo Brito, autor do livro Oswaldo Goeldi (2002), feito para o Instituto Cultural The Axis em parceria com Sílvia Roesler. Brito lembra que essa era uma proposta dos também críticos Mário Pedrosa e Ferreira Gullar logo após a morte do artista, no começo dos anos 60.

– Goeldi é o patrimônio estético por excelência do Modernismo da primeira metade do século 20. Também é o maior exemplo da falta de atenção das autoridades à arte brasileira. Já falo há algum tempo da necessidade de um Museu Goeldi, debati o assunto com algumas pessoas influentes e não vejo iniciativa, fico perplexo. A verdade é que a história da arte no Brasil ainda não tem potência para assimilar Goeldi – afirma.

Ronaldo Brito destaca que, mesmo morto há mais de 40 anos, Oswaldo Goeldi deixou em sua obra questões de tal urgência que até hoje provocam artistas contemporâneos.

– A poética dele é tão forte que mesmo hoje é capaz de dialogar com as mais diversas linguagens, do neoconcretismo de Lygia Pape à arte contemporânea de Nuno Ramos. Tudo o que fizerem por ele ainda é pouco – sustenta.

Outra que defende a criação de museu ou galeria com exposições permanentes de Goeldi é a gravadora e ex-aluna Anna Letycia, nascida em Teresópolis e radicada no Rio. Segundo ela, Lani Goeldi, sobrinha-neta do artista, tem entrado em contato com colecionadores e talvez possa se esperar algo concreto a esse respeito em breve. Amiga do gravador, Anna guarda em sua casa um conjunto de gravuras e a matriz de um auto-retrato dele.

– Goeldi morava sozinho em um apartamento pequeno no Leblon. Era eu que o ajudava a vender gravuras em seus últimos anos. Ele vivia mal da arte, a atividade de ilustrador é que o sustentava. Talvez ele não seja tão valorizado hoje porque trabalhava com gravura, obra que não é única. Mas, no caso dele, era quase: uma matriz de xilogravura permite 100, 120 cópias, mas ele só fazia 12 de cada. As gravuras de cor são ainda mais singulares, pois ele diferenciava os tons de cópia para cópia – conta Anna Letycia.

Como Samico e Brito, Anna Letycia lembra que Goeldi recuperou nos últimos 10 anos parte de seu reconhecimento, devido à publicação de estudos sobre sua trajetória. Em 1995, o Centro Cultural Banco do Brasil do Rio fez uma retrospectiva de sua obra e entre 1998 e 1999 a Casa França-Brasil dedicou-lhe uma mostra de gravuras. Mas nada trazia elementos tão raros quanto a retrospectiva atual. Para o artista plástico Carlos Zilio, professor da Escola de Belas Artes da UFRJ, ele é consagrado para um público mais específico de arte, que envolve estudantes, freqüentadores de exposições, marchands, colecionadores e os próprios artistas. Uma aclamação a que Goeldi assistiu em vida, após expor em 1950 na Bienal de Veneza e, um ano depois, ganhar o prêmio de gravura na 1ª Bienal de São Paulo – com obras que serão expostas no Museu da República. (JB online- 31-10-2005)